A globalização, marcada por um modelo de comunicabilidade em rede, interativo e conectivo, concretiza uma ideia de unificação planetária, mas possui um caráter contraditório: ao mesmo tempo em que é fonte de desigualdades entre setores sociais, culturas e países, ela também pode potencializar a associação, a participação democrática e a defesa de direitos sociopolíticos e culturais.
Martín-Barbero, ao iniciar suas reflexões sobre cultura e tecnologia na atualidade, explica que, apesar das homenagens à diversidade cultural vindas da parte dos governos, das instituições públicas e das organizações do âmbito empresarial das indústrias culturais, ocorre o inverso no plano das políticas protetoras e incentivadoras dessa diversidade.
A sobrevivência da diversidade se dá em uma nova institucionalidade mundial do cultural, que só surgirá de "um novo tipo de relação com a até agora pretensamente única relação fundante, a da cultura com o Estado/nação" (p. 16). Isto significa reinstituir ou reinstitucionalizar o Estado com cidadania, "em termos de interação com a iniciativa das comunidades locais e de interpelação aos novos atores mundiais" (p. 16).
O autor cita Canclini, para quem "o latino-americano" não é um destino revelado pela terra ou pelo sangue, e sim um projeto, frustrado, mas ainda possível. O que se pode fazer, afinal, por
meio das políticas culturais, para que as alianças culturais não sirvam apenas à circulação livre dos capitais, mas também à das culturas?
Diversidade e convergência digital são temas caros à América Latina; em 2014, época do artigo, Martín-Barbero explica que a região estava vivendo um momento politicamente alentador, pois a macroeconomia, entendida como ciência pura e exata, havia passado duas décadas contribuindo "enormemente em nossos países para o esvaziamento simbólico da política, isto é, a perda de sua capacidade de nos convocar e nos fazer sentir unidos" (p. 17). O sequestro da política pela macroeconomia implicava uma desmoralização, sensação de impotência individual e coletiva, e contribuía para a deslegitimização do Estado.
"Então, ao eleger-se agente organizador da sociedade em seu conjunto, o mercado busca redefinir a missão própria do Estado, mediante um reforma em que, ao mesmo tempo que determina metas de eficácia com parâmetros eminentemente quantitativos e imediatistas, provindos do paradigma empresarial privado, descentraliza-o, no sentido de seu enfraquecimento como ator simbólico da coesão nacional e não no de seu aprofundamento da democracia" (p. 17).
Contrário à tendência de tantos pensadores europeus que pensam a relação entre técnica e cultura como uma nefasta combinação entre determinismo tecnológico e pessimismo cultural, o autor se apóia no pensamento de Milton Santos, que "traça uma visão desafiante da globalização como ao mesmo tempo perversidade e possibilidade, paradoxo cuja vertigem ameaça paralisar tanto o pensamento, como a ação capaz de transformar seu curso" (p. 18).
A perversidade sistêmica da globalização está na fabulação que faz do processo avassalador do mercado, "que uniformiza o planeta e aprofunda as diferenças locais, desunindo-o cada vez mais" (p. 18). Isso aumenta a pobreza, desigualdade, desemprego...
Já as possibilidades são mudanças tornadas possíveis, por conta da "enorme e densa mistura de povos, raças, culturas e gostos que acontece hoje - embora com grandes diferenças e assimetrias - em todos os continentes" (p. 18), o que põe em crise a hegemonia do racionalismo ocidental; e das novas tecnologias que permitem aos subalternos uma revanche sociocultural, ou a "construção de uma contra-hegemonia pelo mundo" (p. 18), entre outros fatores.
Para Milton Santos, esse conjunto de possibilidades abre a humanidade para uma universalidade empírica e, assim, uma nova narrativa histórica. Para construí-la, faz-se necessária uma mutação política, um novo tipo de utopia. Os desafios dessa utopia são:
- novo sistema técnico em escala planetária, pois há a convergência e simultaneidade dos momentos no mundo todo, o uso do tempo é transformado;
- velhas e novas tecnologias se cruzam, conectando-se e influenciando-se transversalmente;
- a produção se fragmenta mais do que nunca por meio da técnica, mas há uma "unidade política que articula as fases e comanda o conjunto através de um poderoso motor único, deixando para trás a pluralidade de motores e ritmos com os quais trabalhava o velho imperialismo" (p. 18). Esse novo motor é a competitividade exponencial entre as empresas de todo o mundo por mais ciência, tecnologia e melhor organização;
- o embate contínuo dos fatores de mudança, que caracteriza a crise pela qual o capitalismo passa, e que ultrapassa territórios, países, continentes;
- esse embate é decorrente da "extrema mobilidade das relações e de uma grande adaptabilidade dos atores" (p. 19).
Nosso tempo está fortemente ligado ao fenômeno contemporâneo da globalização, que unifica o planeta, que também nos submete a um dos traços mais perversos dessa mutação pela qual passamos: o divórcio crescente entre Estado e sociedade. Por "dever tanto" a organismos internacionais, é difícil para o Estado responder às necessidades, dinâmicas, demandas de suas própria sociedade.
Em particular na sociedade fraturada da América Latina, as comunidades culturais estão ao mesmo tempo "se convertendo em um âmbito crucial de recriação do sentido das coletividades, de reinvenção de suas identidades, de renovação dos usos de seus patrimônios, de sua reconversão em espaço de articulação produtiva entre o local e o global. Ainda no meio dos processos mais brutais de recessão econômica, de desigualdade e exclusão, nossas sociedades vivem as transformações mundiais que associam um novo modo de produzir a um novo modo de comunicar que, como M. Castells (1997) afirma, converte a cultura - a humana faculdade de processar símbolos - em uma força produtiva direta" (p. 19).
A revolução tecnológica das comunicações agrava o fosso de desigualdades entre setores sociais, culturas e países, mas também mobiliza a imaginação social das coletividades. Assim, potencializa suas capacidades de sobrevivência e de associação, de protesto e de associação democrática, de defesa de seus direitos sociopolíticos e culturais e de ativação de sua criatividade expressiva.
> Interculturalidade e sustentabilidade cultural:
A ideia de convergência esteve presente no âmbito da cultura, antes do campo da tecnologia, através da noção de interculturalidade, segundo a qual não se deve compreender a diversidade cultural "de cima", à margem do intercâmbio entre diversas culturas.
Há um intercâmbio entre culturas, um "entrecruzamento de radiações" entre culturas que se configuram em redes. Ricoeur utiliza do conceito de tradução para explicar o de radiação cultural, pois na tradução "evidencia-se a possibilidade de uma mediação constitutiva entre a pluralidade de culturas e a unidade do humano" (p. 20). As verdadeiras possibilidades e os limites de qualquer intercâmbio entre as culturas se apresentam na tradução entre as línguas. "A história nos incita a trabalhar a partir das condições do traduzível e do indecifrável de cada cultura ao mesmo tempo; a partir, portanto, da exigência insuperável de que as culturas conheçam umas as outras e se reconheçam como tal nas possibilidades e nos limites do intercâmbio entre elas" (p. 20).
A ideia de interculturalidade está intimamente relacionada à de identidade narrativa: "toda identidade se gera e se constitui no ato de narrar-se como história, no processo e na prática de contar-se aos outros" (p. 20). Mais ainda, como a narração não é apenas expressiva, mas também constitui o que somos individual e coletivamente, é necessário contarmos nossos relatos para sermos reconhecidos pelos outros. Os relatos devem dar conta da tensão entre o que somos e o que queremos ser.
Além disso, é pela narração que se é levado em consideração, pois assim se instaura a relação entre o conhecimento e a participação cidadã, a capacidade de participação e intervenção dos indivíduos e as coletividades em tudo aquilo que os concerne. Porém, há o lado perverso do "contar", que é a cooptação, da parte do mercado, do sentido das traduções culturais e da circulação das narrações.
A sustentabilidade cultural, outro conceito em construção, envolve tematizar a "longa temporalidade do cultural no que ela significa de contradição permanente com a temporalidade cada dia mais curta do mercado" (p. 21). Há três vetores básicos sobre os quais a sustentabilidade cultural se move:
- a consciência de uma comunidade sobre um capital cultural próprio (é a sociedade civil, não o Estado, o sujeito e ator central do desenvolvimento sociocultural, e o público é um espaço plural);
- a capacidade de a coletividade tomar decisões que permitam conservar e renovar seu capital cultural (o grau de sustentabilidade de uma cultura é proporcional ao grau de sua autonomia. Sendo a cultura ressituada na ordem da participação política dos cidadãos, há necessidade de criar políticas culturais, pois "sem o exercício de envolvimento dos cidadãos (...) não haverá cultura que sobreviva à planejada instrumentalização pelo mercado de toda diferença cultural" (p. 22);
- e a capacidade de abrir a própria cultura para o intercâmbio e a interação com outras culturas do país e do mundo (as culturas locais, movidas pelos fluxos e pelas dinâmicas de globalização econômica e da mundialização tecnocultural realizam um duplo movimento de desencaixe e reinserção; há uma importância, necessidade, de que esse intercâmbio ache uma resposta projetiva contra a hegemonia globalizadora do mercado, para garantir a sustentabilidade, desafiando o sentido das transformações impostas pelo mercado.
Ainda de acordo com Martín-Barbero, "de dentro das comunidades latino-americanas, os atuais processos de comunicação são percebidos ao mesmo tempo como forma de ameaça à sobrevivência de suas culturas e como possibilidade de romper a exclusão, como experiência de interação que, se comporta riscos, também abre novas figuras de futuro. É uma situação que tem levado a dinâmica das próprias comunidades tradicionais a ultrapassar os marcos de compreensão elaborados pelos folcloristas e não poucos antropólogos: há nessas comunidades menos complacência nostálgica com as tradições e uma maior consciência da indispensável reelaboração simbólica que exige a construção de seu próprio futuro" (p. 22).
Os intercâmbios culturais são novos traços culturais que se intensificam e se expandem. As mudanças nas práticas comunicativas provenientes dos meios interativos à distância são "culturas virtuais" que modificam "a sensibilidade dos sujeitos, suas formas de compreensão do mundo, a relação com os outros e as categorias para apreender o ambiente" (p. 22).
Culturas virtuais = mediações entre cultura e tecnologia, constituem sistemas de intercâmbio simbólico através dos quais sentidos coletivos e formas de se representar o real são configurados.
O que mantém a separação e a oposição entre cultura (como "algo elevado") e comunicação ("mundano", "mercantil") é o purismo das elites intelectuais sobre a relação entre os dois campos. Na gestão das instituições culturais, também há receio em relação aos meios de comunicação, o que impede de se assumir a heterogeneidade da produção simbólica com seriedade. Assumindo a heterogeneidade que as culturas representam, torna-se possível responder às novas demandas culturais e enfrentar sem fatalismos as lógicas da indústria cultural.
Afinal, o papel da política ao intervir na comunicação e na cultura também envolve a produção do sentido do social e de seus modos de reconhecimento entre os cidadãos, e não só a gestão de instituições, serviços, regulação de frequência ou distribuição de bens. Ao se considerar a competência comunicativa dos cidadãos, abre-se a possibilidade de que a comunicação na cultura assuma a tarefa de diluir a barreira social e simbólica entre criadores e consumidores. Dessa forma, torna-se possível a descentralização e desterritorialização das próprias possibilidades de produção cultural e de seus dispositivos.
Há dois processos que vêm transformando radicalmente o lugar da cultura em nossas sociedades: a revitalização das identidades e a revolução das tecnicidades.
As identidades "reconfiguram a força e o sentido dos laços sociais e as possibilidades de convivência no nacional e no local" (p. 23). A globalização é um processo de inclusão/exclusão em escala planetária, que "passa a converter a cultura em espaço estratégico de compressão das tensões que rompem e recompõem o estar juntos e em pontos de encontro de todas as suas crises políticas, econômicas, religiosas, étnicas, estéticas e sexuais. Daí ser a partir da diversidade cultural das histórias e dos territórios, das experiências e das memórias, de onde não só se resiste, mas também se negocia e se interage com a globalização e de onde se acabará por transformá-la" (p. 24).
A demanda de reconhecimento e de sentido é inseparável do que hoje reativa as identidade como motor de luta. E essas demandas se encontram no núcleo da cultura, não se formulam em meros termos econômicos ou políticos. "A identidade é hoje a força mais capaz de introduzir contradições na hegemonia da razão instrumental" (p. 24).
A revolução tecnológica que atravessamos configura um novo ambiente ou ecossistema comunicativo: um terceiro ambiente imbrincado nos ambientes natural e urbano/social. Assim, a tecnologia configura nossos modos de habitar o mundo e as próprias formas do laço social.
A convergência tecnológica sugere o aparecimento de uma razão comunicacional cujos dispositivos agenciam o devir mercado do conjunto da sociedade. Ao contrário do "consenso dialógico com que Habermas (1989) identifica a razão comunicativa, liberada das contradições políticas introduzidas pela mediação tecnológica e mercantil, faz-se necessário decifrar a hegemonia comunicacional do mercado que promove um novo modelo de sociedade em que a comunicação/informação acaba sendo o motor mais eficaz do desencaixe e da inserção das culturas - étnicas, nacionais ou locais - no espaço/tempo do mercado" (p. 24).
Martín-Barbero encara a globalização como um movimento que, "ao fazer da comunicação e da informação a chave de um novo modelo de sociedade, empurra todas as sociedades para uma intensificação de seus contatos e conflitos, expondo as culturas umas às outras de modo inédito" (p. 24).
Quando a "mediação tecnológica da comunicação deixa de ser meramente instrumental para espessar-se, adensar-se e converter-se em estrutura" (p. 25), é o próprio lugar da cultura na sociedade que muda. Há uma relação antropologicamente constitutiva entre cultura e comunicação, que fica ainda mais clara quando algumas das transformações culturais mais decisivas provêm das mutações por que passa a trama tecnológica da comunicação, afetando a percepção que as comunidades culturais têm de si mesmas e seus modos de construir as identidades.
"Pois a tecnologia remete hoje não só, e nem tanto, à novidade dos aparatos, mas também a novos modos de percepção e de linguagem, a novas sensibilidades e escrituras. Radicalizando a experiência de desancoragem produzida pela modernidade, a tecnologia desloca os saberes, modificando tanto o estatuto cognitivo como institucional das condições do saber e das figuras da razão (Chartron, 1994), o que, por sua vez, conduz a um forte apagamento das fronteiras entre razão e imaginação, saber e informação, natureza e artifício, arte e ciência, saber especialista e experiência profana" (p. 25).
A mutação tecnológica passou a configurar um novo ecossistema comunicativo, onde a "experiência audiovisual afetada pela revolução digital aponta para a constituição de uma visibilidade cultural, cenário estratégico hoje de uma batalha política decisiva contra o velho e excludente poder da letra que ao longo de um século e meio ignorou a diferença e a riqueza das oralidades e visualidades culturais, estas que entrelaçam agra suas memórias nos imaginários da virtualidade para dar sentido novo e forma nova às tradições culturais" (p. 25).
Convergência digital corresponde a um processo e a um paradigma que, em um primeiro momento, ao final dos anos 1980, estava propondo a ideologia do "tudo é comunicação", a fim de se legitimar abertamente as lógicas da desregulação dos mercados: "a envergadura política dessa primeira representação da convergência tecnológica é nada mais, nada menos, do que a justificativa técnica da concentração econômica. No reordenamento de nossos Estados pelas políticas neoliberais, o descentramento fomentado pelas novas configurações da tecnologia passou a servir de cobertura ideológica à mais desavergonhada concentração dos meios de comunicação em oligopólios, impensável até poucos anos" (p. 26).
A outra vertente desse processo de convergência/concentração do poder midiático é a mutação tecnológica que proporciona a experiência cultural audiovisual que, por sua vez, aponta para a constituição de novas modalidades de comunidade (artística, científica, cultural) e de uma nova esfera do público. "Ambas acham-se ligadas ao surgimento de uma visibilidade cultural, cenário de uma batalha política decisiva que passa hoje pelo deslocamento dos saberes, perturbando suas velhas, mas ainda prepotentes, hierarquias (Mignolo, 2001), disseminando os espaços onde se produz o conhecimento e os circuitos pelos quais transita, e permitindo aos indivíduos e às coletividades inserir suas culturas cotidianas orais, sonoras e visuais nas novas linguagens e escrituras" (p. 26).
"O olhar crítico é certeiro em nos advertir dos riscos que o atual desenvolvimento tecnológico engendra em suas cumplicidades com as lógicas do mercado e os processos de agravamento da exclusão social. Justamente por isso nossa inserção na nova mundanidade técnica não pode ser pensada como um automatismo de adaptação socialmente inevitável, mas, ao contrário, como um processo densamente carregado de ambiguidades e contradições (...). De fato, a própria pressão tecnológica suscita a necessidade de encontrar e desenvolver outras racionalidades, outros ritmos de vida e de relações tanto com os objetos como com as pessoas, relações nas quais as densidade física e a espessura sensorial readquirem valor primordial. Disso falam a busca das medicinas alternativas ou o esforço em se reencontrar com o próprio corpo e com o dos outros, retomando o contato e o imediatismo na comunicação" (p. 27)
Martín-Barbero destaca ainda a necessidade de se pensar as relações constitutivas entre ciência e técnica, considerando a tecnicidade do mundo, ou seja, a técnica como dimensão constituinte do ser humano, para "pensar a convergência tecnológica como ambiente e ecossistema comunicativo, hoje tão estratégico socialmente como o ecossistema verde" (p. 28). Com a convergência digital, renova-se o modelo de comunicabilidade: do paradigma da transmissão de informação, unidirecional, linear e autoritário, passa-se ao modelo da rede, da conectividade e da interação, o que transforma o modo mecânico da comunicação a distância em um modo eletrônico da interface de proximidade.
Ao final do artigo, o autor defende que existam políticas públicas de convergência cultural. Explica que a convergência digital representa a oportunidade da digitalização, ou seja, coloca dados, textos, sons, imagens e vídeos em uma linguagem comum, o que desmonta a hegemonia racionalista do dualismo "que até agora opunha o inteligível ao sensível e ao emocional, a razão à imaginação, a ciência à arte, e também a cultura à técnica ou o livro aos meios audiovisuais" (p. 28); e configura um novo espaço público, construído a partir dos movimentos sociais, das comunidades culturais e dos meios comunitários. "Ambas as oportunidades encontram-se configuradas por uma enorme e diversa pluralidade de atores, mas que convergem para um compromisso emancipador e uma cultura política na qual a resistência é ao mesmo tempo criadora de iniciativas e alternativas" (p. 28).
No entanto, a convergência cultural também está relacionada ao confronto entre "uma crescente consciência consciência do valor da diferença, da diversidade e da heterogeneidade no plano das civilizações e das culturas étnicas, locais e de gênero" e "um poderoso movimento de uniformização dos imaginários cotidianos nas modas do vestir e dos gostos musicais, nos modelos de corpo e nas expectativas de êxito social, nas narrativas para o grande público no cinema, na televisão e no videogame" (p. 28). De acordo com Martín-Barbero, essa tensão é resolvida pelo mercado quando se coloca "o esforço por diferenciar-se no centro da luta dos indivíduos para sair do anonimato social a que o próprio sistema os condena" (p. 29).
Para criar políticas públicas que assumam a complexidade desses processos, é necessário estabelecer marcos regulatórios de alcance mundial e local, espaços em que a economia, a cultura e a tecnologia se movem hoje. Apesar de, na América Latina, haver uma ausência do setor público na condução das mudanças tecnológicas, o que se reflete em desigualdade nas oportunidades de conexão às redes, o autor defende que existem cenários estratégicos de intervenção das políticas públicas no continente, "cenários especialmente apropriados para pôr a convergência digital a serviço do intercâmbio e da potencialização da diversidade cultural" (p. 29).
Primeiro, pelo potencial estratégico que as redes digitais representam ao tecer a integração sociocultural do espaço latino-americano; outro cenário são as redes tecidas pelos emigrantes; e a escola pública, que também começa a convergir para as tecnologias digitais, pois "as mudanças mais de fundo que a sociedade da informação provoca têm justamente a ver com as novas habilidades mentais exigidas pelos novos ofícios (...)" (p. 30).
"Um quarto cenário, por fim, é constituído pela crescente consciência de que os Direitos à Informação e ao Conhecimento fazem parte integral dos Direitos Humanos. Referimo-nos ao direito dos cidadãos e dos grupos sociais ao acesso à informação não só com receptores, mas também como produtores; e também ao direito à participação do e no conhecimento. Pois, de um lado, a hipervalorização da informação produz uma forte desvalorização dos saberes tradicionais e não informatizáveis, como as estratégias de sobrevivência dos trabalhadores no campo, as experiências de vida dos imigrantes, a memória cultural dos idosos, etc. De tal forma que sociedade da informação, em nossos países, tem significado a expansão de uma sociedade do desconhecimento, isto é, do não reconhecimento da pluralidade de saberes e competências culturais que, sendo compartilhadas pelas maiorias populares ou pelas minorias indígenas ou regionais, não estão sendo incorporadas, como tais, nem nos mapas da sociedade nem sequer nos de seus sistemas educativos" (p. 30).
Martín-Barbero é um crítico do que ele chama de "uma das mais rentáveis armadilhas operada pelo processo de expropriação das maiorias aos bens culturais da humanidade", a proteção à propriedade intelectual, pois "nela o intelectual iguala-se e se reduz ao que se pode apropriar pela via mercantil, e também mistificadora do direito de autor, um direito definitivamente cooptado pela ideia de patente e de sua pseudojurisprudência comercial" (p. 31).
Já as redes culturais seriam a mais nova e fecunda figura da convergência cultural hoje, convertendo-se no novo espaço público de intermediação entre diversos atores de um mesmo país, em meio a possibilidade histórica (e cidadã!) de "renovar radicalmente a trama política da interculturalidade tecendo redes que vinculam cada vez mais o mundo dos artistas e trabalhadores culturais com o de instituições territoriais e organizações sociais. E disso precisaremos, pois só adensando e reforçando ao máximo o tecido dos atores sociais e institucionais de nossas culturas, bem como criando as mais amplas alianças no mundo, poderemos resistir à ofensiva desmobilização política e instrumentalização cultural já empreendidas pela globalização do medo e pelas novas indústrias da segurança" (p. 31).
A conclusão é que "a subordinação das oralidades, sonoridades e visualidades das maiorias à ordem excludente da letra sofre atualmente uma erosão crescente e imprevista que se origina, de um lado, na deslocalização e disseminação dos tradicionalmente modernos circuitos do conhecimento, e de outro, nos novos modos de produção e circulação de linguagens e novas escrituras que emergem através da tecnicidade eletrônica, especialmente na internet. Estamos, assim, diante de um novo cenário cultural e político que pode ser estratégico; primeiro, para a transformação de um sistema educativo excludente não só quantitativa mas, sobretudo, qualitativamente, e profundamente anacrônico em relação às mutações pelas quais passam as culturas cotidianas; segundo, para que a democratização de nossas sociedades chegue ao muno das culturas das maiorias, permitindo às populações apoderar-se, desde suas próprias culturas, dos novos saberes, linguagens e escrituras" (p. 32).
Martín-Barbero, ao iniciar suas reflexões sobre cultura e tecnologia na atualidade, explica que, apesar das homenagens à diversidade cultural vindas da parte dos governos, das instituições públicas e das organizações do âmbito empresarial das indústrias culturais, ocorre o inverso no plano das políticas protetoras e incentivadoras dessa diversidade.
A sobrevivência da diversidade se dá em uma nova institucionalidade mundial do cultural, que só surgirá de "um novo tipo de relação com a até agora pretensamente única relação fundante, a da cultura com o Estado/nação" (p. 16). Isto significa reinstituir ou reinstitucionalizar o Estado com cidadania, "em termos de interação com a iniciativa das comunidades locais e de interpelação aos novos atores mundiais" (p. 16).
O autor cita Canclini, para quem "o latino-americano" não é um destino revelado pela terra ou pelo sangue, e sim um projeto, frustrado, mas ainda possível. O que se pode fazer, afinal, por
meio das políticas culturais, para que as alianças culturais não sirvam apenas à circulação livre dos capitais, mas também à das culturas?
Diversidade e convergência digital são temas caros à América Latina; em 2014, época do artigo, Martín-Barbero explica que a região estava vivendo um momento politicamente alentador, pois a macroeconomia, entendida como ciência pura e exata, havia passado duas décadas contribuindo "enormemente em nossos países para o esvaziamento simbólico da política, isto é, a perda de sua capacidade de nos convocar e nos fazer sentir unidos" (p. 17). O sequestro da política pela macroeconomia implicava uma desmoralização, sensação de impotência individual e coletiva, e contribuía para a deslegitimização do Estado.
"Então, ao eleger-se agente organizador da sociedade em seu conjunto, o mercado busca redefinir a missão própria do Estado, mediante um reforma em que, ao mesmo tempo que determina metas de eficácia com parâmetros eminentemente quantitativos e imediatistas, provindos do paradigma empresarial privado, descentraliza-o, no sentido de seu enfraquecimento como ator simbólico da coesão nacional e não no de seu aprofundamento da democracia" (p. 17).
Contrário à tendência de tantos pensadores europeus que pensam a relação entre técnica e cultura como uma nefasta combinação entre determinismo tecnológico e pessimismo cultural, o autor se apóia no pensamento de Milton Santos, que "traça uma visão desafiante da globalização como ao mesmo tempo perversidade e possibilidade, paradoxo cuja vertigem ameaça paralisar tanto o pensamento, como a ação capaz de transformar seu curso" (p. 18).
A perversidade sistêmica da globalização está na fabulação que faz do processo avassalador do mercado, "que uniformiza o planeta e aprofunda as diferenças locais, desunindo-o cada vez mais" (p. 18). Isso aumenta a pobreza, desigualdade, desemprego...
Já as possibilidades são mudanças tornadas possíveis, por conta da "enorme e densa mistura de povos, raças, culturas e gostos que acontece hoje - embora com grandes diferenças e assimetrias - em todos os continentes" (p. 18), o que põe em crise a hegemonia do racionalismo ocidental; e das novas tecnologias que permitem aos subalternos uma revanche sociocultural, ou a "construção de uma contra-hegemonia pelo mundo" (p. 18), entre outros fatores.
Para Milton Santos, esse conjunto de possibilidades abre a humanidade para uma universalidade empírica e, assim, uma nova narrativa histórica. Para construí-la, faz-se necessária uma mutação política, um novo tipo de utopia. Os desafios dessa utopia são:
- novo sistema técnico em escala planetária, pois há a convergência e simultaneidade dos momentos no mundo todo, o uso do tempo é transformado;
- velhas e novas tecnologias se cruzam, conectando-se e influenciando-se transversalmente;
- a produção se fragmenta mais do que nunca por meio da técnica, mas há uma "unidade política que articula as fases e comanda o conjunto através de um poderoso motor único, deixando para trás a pluralidade de motores e ritmos com os quais trabalhava o velho imperialismo" (p. 18). Esse novo motor é a competitividade exponencial entre as empresas de todo o mundo por mais ciência, tecnologia e melhor organização;
- o embate contínuo dos fatores de mudança, que caracteriza a crise pela qual o capitalismo passa, e que ultrapassa territórios, países, continentes;
- esse embate é decorrente da "extrema mobilidade das relações e de uma grande adaptabilidade dos atores" (p. 19).
Nosso tempo está fortemente ligado ao fenômeno contemporâneo da globalização, que unifica o planeta, que também nos submete a um dos traços mais perversos dessa mutação pela qual passamos: o divórcio crescente entre Estado e sociedade. Por "dever tanto" a organismos internacionais, é difícil para o Estado responder às necessidades, dinâmicas, demandas de suas própria sociedade.
Em particular na sociedade fraturada da América Latina, as comunidades culturais estão ao mesmo tempo "se convertendo em um âmbito crucial de recriação do sentido das coletividades, de reinvenção de suas identidades, de renovação dos usos de seus patrimônios, de sua reconversão em espaço de articulação produtiva entre o local e o global. Ainda no meio dos processos mais brutais de recessão econômica, de desigualdade e exclusão, nossas sociedades vivem as transformações mundiais que associam um novo modo de produzir a um novo modo de comunicar que, como M. Castells (1997) afirma, converte a cultura - a humana faculdade de processar símbolos - em uma força produtiva direta" (p. 19).
A revolução tecnológica das comunicações agrava o fosso de desigualdades entre setores sociais, culturas e países, mas também mobiliza a imaginação social das coletividades. Assim, potencializa suas capacidades de sobrevivência e de associação, de protesto e de associação democrática, de defesa de seus direitos sociopolíticos e culturais e de ativação de sua criatividade expressiva.
> Interculturalidade e sustentabilidade cultural:
A ideia de convergência esteve presente no âmbito da cultura, antes do campo da tecnologia, através da noção de interculturalidade, segundo a qual não se deve compreender a diversidade cultural "de cima", à margem do intercâmbio entre diversas culturas.
Há um intercâmbio entre culturas, um "entrecruzamento de radiações" entre culturas que se configuram em redes. Ricoeur utiliza do conceito de tradução para explicar o de radiação cultural, pois na tradução "evidencia-se a possibilidade de uma mediação constitutiva entre a pluralidade de culturas e a unidade do humano" (p. 20). As verdadeiras possibilidades e os limites de qualquer intercâmbio entre as culturas se apresentam na tradução entre as línguas. "A história nos incita a trabalhar a partir das condições do traduzível e do indecifrável de cada cultura ao mesmo tempo; a partir, portanto, da exigência insuperável de que as culturas conheçam umas as outras e se reconheçam como tal nas possibilidades e nos limites do intercâmbio entre elas" (p. 20).
A ideia de interculturalidade está intimamente relacionada à de identidade narrativa: "toda identidade se gera e se constitui no ato de narrar-se como história, no processo e na prática de contar-se aos outros" (p. 20). Mais ainda, como a narração não é apenas expressiva, mas também constitui o que somos individual e coletivamente, é necessário contarmos nossos relatos para sermos reconhecidos pelos outros. Os relatos devem dar conta da tensão entre o que somos e o que queremos ser.
Além disso, é pela narração que se é levado em consideração, pois assim se instaura a relação entre o conhecimento e a participação cidadã, a capacidade de participação e intervenção dos indivíduos e as coletividades em tudo aquilo que os concerne. Porém, há o lado perverso do "contar", que é a cooptação, da parte do mercado, do sentido das traduções culturais e da circulação das narrações.
A sustentabilidade cultural, outro conceito em construção, envolve tematizar a "longa temporalidade do cultural no que ela significa de contradição permanente com a temporalidade cada dia mais curta do mercado" (p. 21). Há três vetores básicos sobre os quais a sustentabilidade cultural se move:
- a consciência de uma comunidade sobre um capital cultural próprio (é a sociedade civil, não o Estado, o sujeito e ator central do desenvolvimento sociocultural, e o público é um espaço plural);
- a capacidade de a coletividade tomar decisões que permitam conservar e renovar seu capital cultural (o grau de sustentabilidade de uma cultura é proporcional ao grau de sua autonomia. Sendo a cultura ressituada na ordem da participação política dos cidadãos, há necessidade de criar políticas culturais, pois "sem o exercício de envolvimento dos cidadãos (...) não haverá cultura que sobreviva à planejada instrumentalização pelo mercado de toda diferença cultural" (p. 22);
- e a capacidade de abrir a própria cultura para o intercâmbio e a interação com outras culturas do país e do mundo (as culturas locais, movidas pelos fluxos e pelas dinâmicas de globalização econômica e da mundialização tecnocultural realizam um duplo movimento de desencaixe e reinserção; há uma importância, necessidade, de que esse intercâmbio ache uma resposta projetiva contra a hegemonia globalizadora do mercado, para garantir a sustentabilidade, desafiando o sentido das transformações impostas pelo mercado.
Ainda de acordo com Martín-Barbero, "de dentro das comunidades latino-americanas, os atuais processos de comunicação são percebidos ao mesmo tempo como forma de ameaça à sobrevivência de suas culturas e como possibilidade de romper a exclusão, como experiência de interação que, se comporta riscos, também abre novas figuras de futuro. É uma situação que tem levado a dinâmica das próprias comunidades tradicionais a ultrapassar os marcos de compreensão elaborados pelos folcloristas e não poucos antropólogos: há nessas comunidades menos complacência nostálgica com as tradições e uma maior consciência da indispensável reelaboração simbólica que exige a construção de seu próprio futuro" (p. 22).
Os intercâmbios culturais são novos traços culturais que se intensificam e se expandem. As mudanças nas práticas comunicativas provenientes dos meios interativos à distância são "culturas virtuais" que modificam "a sensibilidade dos sujeitos, suas formas de compreensão do mundo, a relação com os outros e as categorias para apreender o ambiente" (p. 22).
Culturas virtuais = mediações entre cultura e tecnologia, constituem sistemas de intercâmbio simbólico através dos quais sentidos coletivos e formas de se representar o real são configurados.
O que mantém a separação e a oposição entre cultura (como "algo elevado") e comunicação ("mundano", "mercantil") é o purismo das elites intelectuais sobre a relação entre os dois campos. Na gestão das instituições culturais, também há receio em relação aos meios de comunicação, o que impede de se assumir a heterogeneidade da produção simbólica com seriedade. Assumindo a heterogeneidade que as culturas representam, torna-se possível responder às novas demandas culturais e enfrentar sem fatalismos as lógicas da indústria cultural.
Afinal, o papel da política ao intervir na comunicação e na cultura também envolve a produção do sentido do social e de seus modos de reconhecimento entre os cidadãos, e não só a gestão de instituições, serviços, regulação de frequência ou distribuição de bens. Ao se considerar a competência comunicativa dos cidadãos, abre-se a possibilidade de que a comunicação na cultura assuma a tarefa de diluir a barreira social e simbólica entre criadores e consumidores. Dessa forma, torna-se possível a descentralização e desterritorialização das próprias possibilidades de produção cultural e de seus dispositivos.
Há dois processos que vêm transformando radicalmente o lugar da cultura em nossas sociedades: a revitalização das identidades e a revolução das tecnicidades.
As identidades "reconfiguram a força e o sentido dos laços sociais e as possibilidades de convivência no nacional e no local" (p. 23). A globalização é um processo de inclusão/exclusão em escala planetária, que "passa a converter a cultura em espaço estratégico de compressão das tensões que rompem e recompõem o estar juntos e em pontos de encontro de todas as suas crises políticas, econômicas, religiosas, étnicas, estéticas e sexuais. Daí ser a partir da diversidade cultural das histórias e dos territórios, das experiências e das memórias, de onde não só se resiste, mas também se negocia e se interage com a globalização e de onde se acabará por transformá-la" (p. 24).
A demanda de reconhecimento e de sentido é inseparável do que hoje reativa as identidade como motor de luta. E essas demandas se encontram no núcleo da cultura, não se formulam em meros termos econômicos ou políticos. "A identidade é hoje a força mais capaz de introduzir contradições na hegemonia da razão instrumental" (p. 24).
A revolução tecnológica que atravessamos configura um novo ambiente ou ecossistema comunicativo: um terceiro ambiente imbrincado nos ambientes natural e urbano/social. Assim, a tecnologia configura nossos modos de habitar o mundo e as próprias formas do laço social.
A convergência tecnológica sugere o aparecimento de uma razão comunicacional cujos dispositivos agenciam o devir mercado do conjunto da sociedade. Ao contrário do "consenso dialógico com que Habermas (1989) identifica a razão comunicativa, liberada das contradições políticas introduzidas pela mediação tecnológica e mercantil, faz-se necessário decifrar a hegemonia comunicacional do mercado que promove um novo modelo de sociedade em que a comunicação/informação acaba sendo o motor mais eficaz do desencaixe e da inserção das culturas - étnicas, nacionais ou locais - no espaço/tempo do mercado" (p. 24).
Martín-Barbero encara a globalização como um movimento que, "ao fazer da comunicação e da informação a chave de um novo modelo de sociedade, empurra todas as sociedades para uma intensificação de seus contatos e conflitos, expondo as culturas umas às outras de modo inédito" (p. 24).
Quando a "mediação tecnológica da comunicação deixa de ser meramente instrumental para espessar-se, adensar-se e converter-se em estrutura" (p. 25), é o próprio lugar da cultura na sociedade que muda. Há uma relação antropologicamente constitutiva entre cultura e comunicação, que fica ainda mais clara quando algumas das transformações culturais mais decisivas provêm das mutações por que passa a trama tecnológica da comunicação, afetando a percepção que as comunidades culturais têm de si mesmas e seus modos de construir as identidades.
"Pois a tecnologia remete hoje não só, e nem tanto, à novidade dos aparatos, mas também a novos modos de percepção e de linguagem, a novas sensibilidades e escrituras. Radicalizando a experiência de desancoragem produzida pela modernidade, a tecnologia desloca os saberes, modificando tanto o estatuto cognitivo como institucional das condições do saber e das figuras da razão (Chartron, 1994), o que, por sua vez, conduz a um forte apagamento das fronteiras entre razão e imaginação, saber e informação, natureza e artifício, arte e ciência, saber especialista e experiência profana" (p. 25).
A mutação tecnológica passou a configurar um novo ecossistema comunicativo, onde a "experiência audiovisual afetada pela revolução digital aponta para a constituição de uma visibilidade cultural, cenário estratégico hoje de uma batalha política decisiva contra o velho e excludente poder da letra que ao longo de um século e meio ignorou a diferença e a riqueza das oralidades e visualidades culturais, estas que entrelaçam agra suas memórias nos imaginários da virtualidade para dar sentido novo e forma nova às tradições culturais" (p. 25).
Convergência digital corresponde a um processo e a um paradigma que, em um primeiro momento, ao final dos anos 1980, estava propondo a ideologia do "tudo é comunicação", a fim de se legitimar abertamente as lógicas da desregulação dos mercados: "a envergadura política dessa primeira representação da convergência tecnológica é nada mais, nada menos, do que a justificativa técnica da concentração econômica. No reordenamento de nossos Estados pelas políticas neoliberais, o descentramento fomentado pelas novas configurações da tecnologia passou a servir de cobertura ideológica à mais desavergonhada concentração dos meios de comunicação em oligopólios, impensável até poucos anos" (p. 26).
A outra vertente desse processo de convergência/concentração do poder midiático é a mutação tecnológica que proporciona a experiência cultural audiovisual que, por sua vez, aponta para a constituição de novas modalidades de comunidade (artística, científica, cultural) e de uma nova esfera do público. "Ambas acham-se ligadas ao surgimento de uma visibilidade cultural, cenário de uma batalha política decisiva que passa hoje pelo deslocamento dos saberes, perturbando suas velhas, mas ainda prepotentes, hierarquias (Mignolo, 2001), disseminando os espaços onde se produz o conhecimento e os circuitos pelos quais transita, e permitindo aos indivíduos e às coletividades inserir suas culturas cotidianas orais, sonoras e visuais nas novas linguagens e escrituras" (p. 26).
"O olhar crítico é certeiro em nos advertir dos riscos que o atual desenvolvimento tecnológico engendra em suas cumplicidades com as lógicas do mercado e os processos de agravamento da exclusão social. Justamente por isso nossa inserção na nova mundanidade técnica não pode ser pensada como um automatismo de adaptação socialmente inevitável, mas, ao contrário, como um processo densamente carregado de ambiguidades e contradições (...). De fato, a própria pressão tecnológica suscita a necessidade de encontrar e desenvolver outras racionalidades, outros ritmos de vida e de relações tanto com os objetos como com as pessoas, relações nas quais as densidade física e a espessura sensorial readquirem valor primordial. Disso falam a busca das medicinas alternativas ou o esforço em se reencontrar com o próprio corpo e com o dos outros, retomando o contato e o imediatismo na comunicação" (p. 27)
Martín-Barbero destaca ainda a necessidade de se pensar as relações constitutivas entre ciência e técnica, considerando a tecnicidade do mundo, ou seja, a técnica como dimensão constituinte do ser humano, para "pensar a convergência tecnológica como ambiente e ecossistema comunicativo, hoje tão estratégico socialmente como o ecossistema verde" (p. 28). Com a convergência digital, renova-se o modelo de comunicabilidade: do paradigma da transmissão de informação, unidirecional, linear e autoritário, passa-se ao modelo da rede, da conectividade e da interação, o que transforma o modo mecânico da comunicação a distância em um modo eletrônico da interface de proximidade.
Ao final do artigo, o autor defende que existam políticas públicas de convergência cultural. Explica que a convergência digital representa a oportunidade da digitalização, ou seja, coloca dados, textos, sons, imagens e vídeos em uma linguagem comum, o que desmonta a hegemonia racionalista do dualismo "que até agora opunha o inteligível ao sensível e ao emocional, a razão à imaginação, a ciência à arte, e também a cultura à técnica ou o livro aos meios audiovisuais" (p. 28); e configura um novo espaço público, construído a partir dos movimentos sociais, das comunidades culturais e dos meios comunitários. "Ambas as oportunidades encontram-se configuradas por uma enorme e diversa pluralidade de atores, mas que convergem para um compromisso emancipador e uma cultura política na qual a resistência é ao mesmo tempo criadora de iniciativas e alternativas" (p. 28).
No entanto, a convergência cultural também está relacionada ao confronto entre "uma crescente consciência consciência do valor da diferença, da diversidade e da heterogeneidade no plano das civilizações e das culturas étnicas, locais e de gênero" e "um poderoso movimento de uniformização dos imaginários cotidianos nas modas do vestir e dos gostos musicais, nos modelos de corpo e nas expectativas de êxito social, nas narrativas para o grande público no cinema, na televisão e no videogame" (p. 28). De acordo com Martín-Barbero, essa tensão é resolvida pelo mercado quando se coloca "o esforço por diferenciar-se no centro da luta dos indivíduos para sair do anonimato social a que o próprio sistema os condena" (p. 29).
Para criar políticas públicas que assumam a complexidade desses processos, é necessário estabelecer marcos regulatórios de alcance mundial e local, espaços em que a economia, a cultura e a tecnologia se movem hoje. Apesar de, na América Latina, haver uma ausência do setor público na condução das mudanças tecnológicas, o que se reflete em desigualdade nas oportunidades de conexão às redes, o autor defende que existem cenários estratégicos de intervenção das políticas públicas no continente, "cenários especialmente apropriados para pôr a convergência digital a serviço do intercâmbio e da potencialização da diversidade cultural" (p. 29).
Primeiro, pelo potencial estratégico que as redes digitais representam ao tecer a integração sociocultural do espaço latino-americano; outro cenário são as redes tecidas pelos emigrantes; e a escola pública, que também começa a convergir para as tecnologias digitais, pois "as mudanças mais de fundo que a sociedade da informação provoca têm justamente a ver com as novas habilidades mentais exigidas pelos novos ofícios (...)" (p. 30).
"Um quarto cenário, por fim, é constituído pela crescente consciência de que os Direitos à Informação e ao Conhecimento fazem parte integral dos Direitos Humanos. Referimo-nos ao direito dos cidadãos e dos grupos sociais ao acesso à informação não só com receptores, mas também como produtores; e também ao direito à participação do e no conhecimento. Pois, de um lado, a hipervalorização da informação produz uma forte desvalorização dos saberes tradicionais e não informatizáveis, como as estratégias de sobrevivência dos trabalhadores no campo, as experiências de vida dos imigrantes, a memória cultural dos idosos, etc. De tal forma que sociedade da informação, em nossos países, tem significado a expansão de uma sociedade do desconhecimento, isto é, do não reconhecimento da pluralidade de saberes e competências culturais que, sendo compartilhadas pelas maiorias populares ou pelas minorias indígenas ou regionais, não estão sendo incorporadas, como tais, nem nos mapas da sociedade nem sequer nos de seus sistemas educativos" (p. 30).
Martín-Barbero é um crítico do que ele chama de "uma das mais rentáveis armadilhas operada pelo processo de expropriação das maiorias aos bens culturais da humanidade", a proteção à propriedade intelectual, pois "nela o intelectual iguala-se e se reduz ao que se pode apropriar pela via mercantil, e também mistificadora do direito de autor, um direito definitivamente cooptado pela ideia de patente e de sua pseudojurisprudência comercial" (p. 31).
Já as redes culturais seriam a mais nova e fecunda figura da convergência cultural hoje, convertendo-se no novo espaço público de intermediação entre diversos atores de um mesmo país, em meio a possibilidade histórica (e cidadã!) de "renovar radicalmente a trama política da interculturalidade tecendo redes que vinculam cada vez mais o mundo dos artistas e trabalhadores culturais com o de instituições territoriais e organizações sociais. E disso precisaremos, pois só adensando e reforçando ao máximo o tecido dos atores sociais e institucionais de nossas culturas, bem como criando as mais amplas alianças no mundo, poderemos resistir à ofensiva desmobilização política e instrumentalização cultural já empreendidas pela globalização do medo e pelas novas indústrias da segurança" (p. 31).
A conclusão é que "a subordinação das oralidades, sonoridades e visualidades das maiorias à ordem excludente da letra sofre atualmente uma erosão crescente e imprevista que se origina, de um lado, na deslocalização e disseminação dos tradicionalmente modernos circuitos do conhecimento, e de outro, nos novos modos de produção e circulação de linguagens e novas escrituras que emergem através da tecnicidade eletrônica, especialmente na internet. Estamos, assim, diante de um novo cenário cultural e político que pode ser estratégico; primeiro, para a transformação de um sistema educativo excludente não só quantitativa mas, sobretudo, qualitativamente, e profundamente anacrônico em relação às mutações pelas quais passam as culturas cotidianas; segundo, para que a democratização de nossas sociedades chegue ao muno das culturas das maiorias, permitindo às populações apoderar-se, desde suas próprias culturas, dos novos saberes, linguagens e escrituras" (p. 32).